quarta-feira, 24 de julho de 2013

Endometriose.

Drauzio Varella
Há mulheres que comem o pão que o diabo amassou, quando chega a menstruação. Sentem dores fortes, mal estar e muita irritação.
Muitas delas são portadoras de endometriose, mal que acomete pelo menos 5% a 10% das que estão em idade reprodutiva. No caso das adolescentes com esses sintomas; esse número pode atingir 40% a 50%.
O que caracteriza a endometriose é a presença de implantes de um tecido bastante semelhante ao endométrio (a camada que reveste a parte interna do útero) na cavidade abdominal ou nos ovários.
O quadro clínico é caracterizado pela tríade: dor crônica na região pélvica, infertilidade e dor à penetração profunda durante as relações sexuais. Podem ocorrer ainda alterações do ritmo digestivo e urinário durante o período menstrual.
Apesar dessa sintomatologia, estudo feito no Hospital das Clínicas de São Paulo pela equipe do Dr. Maurício Abrão mostrou que, em 44% dos casos, o diagnóstico só é feito cinco anos ou mais depois dos primeiros sintomas.
Há fatores genéticos envolvidos na gênese: mulheres com familiares portadoras de endometriose têm risco sete vezes maior de desenvolvê-la.
O distúrbio pode instalar-se como consequência de alterações anatômicas ou bioquímicas.
É exemplo de endometriose relacionada a alterações anatômicas, a que surge em jovens portadoras de obstruções vaginais que dificultam o fluxo menstrual, forçando os restos de endométrio a percorrer o caminho retrógrado, em direção às tubas uterinas, aos ovários e à cavidade abdominal.
Constituem exemplo de alterações bioquímicas, os casos ocorridos entre mulheres que foram expostas durante a vida intrauterina a doses altas de estrógenos, administradas a suas mães.
Existem três formas principais da doença: peritonial (quando os implantes se estabelecem na superfície interna da cavidade pélvica e dos ovários), endometriomas (quando surgem cistos ovarianos complexos revestidos por tecido endometrioide) e nódulos retovaginais (quando o tecido endometrioide forma nódulos sólidos no espaço entre o reto e a vagina).
Há quatro hipóteses principais para explicar a endometriose:
1) Fragmentos do endométrio que deveriam ser eliminados pela menstruação fariam o trajeto retrógrado na direção da cavidade abdominal;
2) As lesões surgiriam na cavidade abdominal como resultado da persistência de células primitivas, que se diferenciariam em tecido semelhante ao do endométrio;
3) As células endometriais presentes no líquido menstrual migrariam para a cavidade abdominal através dos vasos sanguíneos ou linfáticos;
4) Células-tronco da medula óssea cairiam na circulação e se diferenciariam em tecido endometrioide formando os implantes pélvicos.
Há evidências de que a repetição dos ciclos ovulatórios tenha importância na formação e persistência dos implantes, uma vez que os sintomas geralmente desaparecem na menopausa, a multiparidade está associada à diminuição do risco de desenvolver a doença e a inibição da função ovariana com medicamentos reduz as dimensões dos nódulos, evita novos implantes e alivia os sintomas.
O diagnóstico é feito a partir das queixas, do exame ginecológico (que pode revelar a existência de nódulos entre a vagina e o reto, ovários aumentados e dolorosos ao toque) e do ultrassom. Implantes menores situados na cavidade abdominal podem ser visualizados pela laparoscopia.
O tratamento clínico pode ser feito com o uso da pílula anticoncepcional (contendo estrogênio e progesterona ou apenas progesterona), através da inibição da função ovariana ou do emprego de drogas pertencentes ao grupo dos inibidores da aromatase, enzima importante para a formação de estrogênio.
O tratamento cirúrgico quase sempre é feito pela laparoscopia que permite retirar os implantes ou vaporizá-los por meio de raios laser ou aplicação de corrente elétrica. Cirurgias convencionais são indicadas apenas em casos selecionados.

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