segunda-feira, 25 de março de 2013

Um Passeio Pelas ‘Ruínas’ do Orkut, Uma Cidade Fantasma.


N.B.: Putz, não deveria ter excluído o meu!!! Hehehehe


Que fim levou aquela que já foi a maior rede social do país e por onde andam alguns dos seus membros mais ativos
Hoje esvaziado, site vive onda nostálgica que reverencia suas hilárias comunidades em outros fóruns na internet
Maurício Cid, que criou 1.024 comunidades e agora tem blog “Não Salvo”, é um dos “órfãos”
João Mascarenhas foi dono da maior comunidade que existiu, a “Eu odeio acordar cedo”, com 6,1 milhões de usuários: vendeu-a em 2009, por R$ 4 mil. (foto: O Globo / Camilla Maia)
João Mascarenhas foi dono da maior comunidade que existiu, a “Eu odeio acordar cedo”, com 6,1 milhões de usuários: vendeu-a em 2009, por R$ 4 mil. (foto: O Globo / Camilla Maia)

Uma das última vezes que escrevi uma frase no Orkut foi em abril de 2010. Eu tinha 28 anos, morava em São Paulo e acabara de aparecer, por acaso, no programa de Ana Maria Braga. Uma parente, que me vira na TV, escrevera na minha página da comunidade social: “Ninguém aparece na Ana Maria Braga para responder ‘pegadinhas’ impunemente!” Retruquei com uma piada (“Flagrado pela própria família!”), e fechei a página. Era 19 de abril de 2010. Desde então, meu perfil no Orkut tornou-se um moribundo virtual.
Criado em janeiro de 2004 pelo engenheiro turco Orkut Büyükkökten, de quem herdou o nome, o Orkut foi, por seis anos, a maior rede social da internet no Brasil — de onde vinha metade dos 70 milhões de usuários que chegou a ter. Em 2008, o Google — empresa que opera o Orkut — transferiu o controle do site da Califórnia para Belo Horizonte. A iniciativa, que visava fortalecer o site ainda mais no país, teve efeito limitado: dali a dois anos, o Orkut seria ultrapassado pelo Facebook (a rede social de Marck Zuckerberg, que congrega mais de um bilhão de usuários mundo afora). Em fevereiro deste ano, de acordo com estimativa feita a partir de cem mil computadores pela ComScore, consultoria que mede a audiência da internet, o Orkut teve 17 milhões de visitantes no Brasil. O número foi quatro vezes menor do que o registrado para o Facebook no mesmo período.
— Entrei pela última vez há quatro meses, e foi melancólico — lembra, por telefone, o jornalista Alexandre Inagaki, ex-curador de mídias sociais da Campus Party (maior feira de internet no Brasil). — As comunidades mais interessantes estavam paradas, minha página estava cheia de spams escabrosos. O Orkut virou um museu de grandes novidades.
Desde que há internet, há troca de mensagens. Desde que há troca de mensagens, há comunidades sociais. A primeira, Classmates, foi criada em 1995, para congregar estudantes de escolas e universidades americanas. Nos anos seguintes surgiram MirC, MySpace, LinkedIn, MSN (esse extinto pela Microsoft no ano passado, por falta de uso). Todas tiveram relativo sucesso no país, mas nada que se comparasse à hegemonia conquistada pelo Orkut.
Nascido numa empresa americana, o Orkut visava, inicialmente, o mercado americano. Em janeiro de 2004 — primeiro mês de funcionamento —, dos dez países com mais usuários, o Brasil ocupava a oitava colocação. Em abril daquele ano, já subira para terceiro, atrás dos Estados Unidos e do Japão. Dois meses depois, no dia 23 de junho, conquistou a primazia — posto do qual jamais seria retirado. Havia ali um traço da sociedade brasileira, mas também um acaso: em paralelo, outras redes sociais cresciam em outros países (Hi5 no México, Friendster na Malásia, Facebook nos Estados Unidos).
O Orkut surgiu de forma excludente: entrava-se na rede mediante convite. Da primeira leva de brasileiros a se aventurar, constavam a jornalista Cora Rónai e o antropólogo Hermano Vianna. O meu convite chegou em março de 2005, por intermédio de uma amiga. Nós tínhamos 23 anos, estávamos no segundo ano de Jornalismo, conversávamos muito pelo computador. No Orkut, há resquícios de mensagens nossas sobre um dente siso que ela tirara, sobre o quarto casamento de Roberto Justus e sobre a festa de uma amiga de quem éramos próximos, e com quem nunca mais falamos.
Para advogado, rede é um documento histórico sobre o Brasil
Estão marcados, no meu histórico, o dia em que consegui meu primeiro emprego (“Caracas!!!! Qual vai ser o seu horário???”, perguntou uma amiga), o dia em que sofri um acidente, que me deixou um mês acamado (“Vc tá melhor???? Fiquei sabendo”, escreveu minha prima), o dia em que entrei para uma comunidade de fãs do deputado Paulo Maluf (“Vou te espancar!”, bradou uma paulistana).
Está lá a primeira mensagem que recebi de uma moça que viria a ser minha namorada (“Você é capcioso”) e a última que ela escreveu antes de terminarmos (“Você está sendo irônico?”). Entre março de 2005 e agosto de 2011, 2.344 mensagens foram escritas por amigos no meu perfil. Elas formam um retrato do que eu fui (ou aparentei ser) naquele período — mas não só. Quando o foco é ampliado para todos os perfis, de todos os usuários que restaram, há, ali, um retrato do que foi uma parcela do Brasil naquele período.
— O Orkut é o documento mais importante de dado primário da década passada, tão importante quanto os processos judiciais — diz o advogado especializado em direito digital Ronaldo Lemos. — No futuro, pesquisadores que forem ao Orkut vão entender numa escala microscópica o que estava acontecendo no país naquele momento. Está tudo lá: moda, política, sem falar na inclusão social.
Diretor do Centro de Tecnologia e da Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, Lemos defende que o conteúdo do Orkut deveria ser preservado pela Biblioteca Nacional ou pelo próprio Google (embora não tenha tido uma conversa formal com nenhuma das duas instituições). A ideia é calcada no exemplo da Library of Congress, a biblioteca do congresso americano que, desde 2010, compilou 170 bilhões de mensagens escritas no microblog Twitter, acreditando no valor histórico que possam vir a ter.
Ele diz não conhecer uma única pessoa que acesse o Orkut regularmente. Suas visitas à comunidade costumam ser melancólicas:
— Fico deprimido, sempre que entro, com as propagandas pedindo para eu me converter ao Google+ (rede social criada pela empresa americana em 2011, como tentativa de responder ao avanço do Facebook). O Google quer que todo mundo saia do Orkut.
Hoje, o usuário que tenta acessar o Orkut se depara com uma mensagem do próprio Google oferecendo um “upgrade de seu perfil”. Quem aceita tem todas as fotos e informações abduzidas pelo Google+. Quem ignora permanece, qual o último marinheiro a deixar o navio, na página do Orkut.
Procurado ao longo de uma semana, o Google respondeu com uma declaração genérica sobre a possibilidade de o Orkut ser extinto (a exemplo do que vai ocorrer com o aplicativo Google Reader em julho): “Construímos muitas integrações entre o Orkut e o Google+, incluindo a possibilidade de unificação de perfis e também de compartilhamento de posts entre eles.” Declarou ainda que não há planos de juntar as duas comunidades.

Nenhum comentário:

Postar um comentário