terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Vocalista Admite Uso de Sinalizador, Mas Acha Que Não Causou Incêndio.

G1.

Policiais civis conferem 231 boletins de ocorrências das mortes na Boate Kiss registrados no 1º Distrito Policial de Santa Maria, no Rio Grande do Sul (Foto: Tahiane Stochero/G1)
Policiais civis conferem 231 boletins de ocorrência das mortes ocorridas em incêndio na boate Kiss, que foram registrados no 1º Distrito Policial de Santa Maria, no Rio Grande do Sul (Foto: Tahiane Stochero/G1)

O vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo Santos, admitiu em seu depoimento à Polícia Civil que segurou um sinalizador aceso durante o show na boate Kiss, de acordo com o promotor criminal Joel Oliveira Dutra, que acompanha o caso. O músico negou, no entanto, que as faíscas do artefato tenham provocado o incêndio e disse que já havia manipulado esse tipo de sinalizador por diversas vezes em outras apresentações.
"Ele confirmou que usou e que era algo frequente nas apresentações dele, mas ele acredita que isso não tenha provocado o fogo", afirmou ao G1 Oliveira Dutra.
As causas do incêndio, que provocou a morte de mais de 230 pessoas no domingo (27), em Santa Maria (RS), são investigada pela polícia. Testemunhas relataram que o fogo começou depois que o vocalista acendeu uma espécie de sinalizador, e faíscas atingiram o teto da casa noturna. Delegados aguardam o resultado da perícia para verificar o que ocorreu e onde as chamas começaram.
O delegado Marcos Vianna, responsável pelo inquérito, disse ao G1 que uma soma de quatro fatores contribuiu para a tragédia: 1) o fato de a boate ter apenas uma saída e a porta ser de tamanho reduzido; 2) o uso de um artefato sinalizador em um local fechado; 3) o excesso de pessoas no local e 4) a espuma usada no revestimento do teto, que pode não ter sido a mais indicada e ter influenciado na formação de gás tóxico, contribuindo para as mortes.
A promotora Waleska Agostini, responsável pelo caso, disse nesta terça (29) que, ao depor à polícia, um integrante da banda "deu a entender" que o fogo não foi causado pelo sinalizador. "Ele disse que o material não tinha pólvora e que seria de fogo frio. Portanto, não teria a capacidade de queimar", afirmou a promotora, sem dizer quem foi o integrante que deu a declaração.
Na segunda, o delegado regional de Santa Maria, Marcelo Arigony, disse em entrevista coletiva que, nos depoimentos colhidos até aquele momento, ninguém havia assumido ter soltado o sinalizador.
Em entrevista ao G1 na segunda, o baterista Eliel de Lima, de 31 anos, e o guitarrista Rodrigo Lemos Martins, de 32 anos, disseram que não viram quem acionou o efeito pirotécnico e que não sabem de quem é a responsabilidade. "Não sei dizer quem começou a queima dos fogos. Normalmente é a equipe técnica que decide isso", contou Eliel, que toca com o grupo há nove meses. "Nunca gostei do cheiro que deixava. Mas somos empregados, quem manda são os donos", falou Rodrigo.
O vocalista Marcelo Santos e um responsável pela segurança do palco da banda foram presos na segunda-feira (28) por determinação judicial. Além deles, Mauro Hoffmann, um dos sócios da boate, teve a prisão temporária decretada pela Justiça por 5 dias e foi encaminhado ao Presídio de Santo Antão, a cerca de 7 km do centro de Santa Maria. Elissandro Spohr, o Kiko, que também é sócio da casa noturna, foi detido em um hospital de Cruz Alta e está sob custódia da polícia. Ele está internado para tratar uma intoxicação causada pela fumaça.
Depoimentos apontam para uso de sinalizador
Segundo o chefe da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, delegado Ranolfo Vieira Júnior, os depoimentos prestados até o momento apontam para a versão de que o vocalista usou o sinalizador. "Tanto depoimentos colhidos por nós com o público quanto com integrantes da banda comprovam que o vocalista usou o sinalizador", afirmou.

A versão foi corroborada pelo delegado responsável pelo inquérito, Marcos Vianna, titular do 1º Distrito Policial de Santa Maria, onde os integrantes da banda foram ouvidos. Conforme Vianna, jovens que estavam na boate no dia da tragédia deram mesmo relato.
Até o momento, apenas os dois integrantes da banda presos foram ouvidos. Os demais não prestaram depoimento formal. Em entrevista ao G1, o baterista Eliel de Lima, de 31 anos, e o guitarrista Rodrigo Lemos Martins, de 32 anos, disseram que não viram quem acionou o efeito pirotécnico. 
'Fogo frio' pode queimar superfície
O G1 questionou especialistas sobre o uso do "fogo frio "em artefatos pirotécnicos. Segundo, eles, o termo "frio" não significa que o fogo de artifício não possa queimar tanto a pele quanto superfícies inflamáveis.

De acordo com Leonardo Amato Gatti, diretor-técnico da Associação Brasileira de Pirotecnia, este efeito especial para ambiente interno é considerado "frio" porque tem uma perda de calor durante o processo de combustão, o que não isenta o risco de incêndio. "Quando você acende o produto, as primeiras faíscas liberadas [na direção de baixo para cima] são quentes e podem queimar. É um material que dá combustão", explicou.
Gatti complementou que há produtos deste tipo vendidos no mercado paralelo e fabricados com materiais de baixa qualidade, com grande procura devido ao preço menor.
Sobre o uso do equipamento chamado "Sputnik", ele disse que o produto é "terminantemente proibido" de ser utilizado em ambientes fechados já que é "extremamente inflamável e gera muita fumaça".
"Nunca pode usar o Sputnik em lugar fechado ou em qualquer tipo de palco. Na embalagem vem escrita a restrição. Tem que ter, pelo menos, uma distância de 15 metros entre o artefato e as pessoas, carros ou qualquer vegetação", afirmou Gatti.
O professor de química Raphael Salles Silva, do Instituto Federal do Rio de Janeiro, explicou que o verdadeiro "fogo frio" refere-se a uma experiência química utilizada principalmente no ambiente escolar para explicar o fenômeno da absorção de solventes, como a acetona e isopropanol, sem queimar um tecido. "Quando você coloca fogo no tecido, o fogo absorve o solvente orgânico. O calor não ataca o tecido, que permanece intacto", esclareceu Silva.
'É muito prematuro responsabilizá-los'
Tanto o delegado regional de Santa Maria, Marcelo Arigony, quanto a promotora Waleska Agostini, que atua no caso, afirmaram que existe a possibilidade dos donos da boate e dos músicos serem acusados de homicídio culposo.

"É possível, mas ainda é muito prematuro responsabilizá-los. Necessito do inquérito policial concluído para tomar alguma atitude", declarou a promotora, que estimou em pelo menos 30 dias o prazo de conclusão do inquérito policial. "Por necessitar de muita prova pericial, laudos, dificilmente esse caso será solucionado antes desse prazo".
ARTE ESTATICA (resumo do caso) 620 (Foto: Editoria de Arte / G1)

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