quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Outros Hábitos - Anna França.


Classificação Pessoal: Razoável. 

Destemida e temida por setores do clero, a ex-freira franciscana de 42 anos, Anna França, resolveu mostrar ao mundo que, ao contrário dos anjos, os religiosos têm sexo. No livro Outros hábitos (Editora Garamond), Anna conta seu romance com Heloar (nome fictício), então madre superiora de um convento em Belo Horizonte. Não fosse o peculiar namoro entre duas religiosas, a obra seria apenas mais uma história de amor entre duas mulheres. Até os direitos autorais do livro foram comprados para virar peça de teatro. “Minha intenção não é chocar, mas apenas contar minha história”, diz Anna. Ela resolveu escrever após diagnosticar um câncer na mama e outro no útero, hoje controlados.

Atração – Anna decidiu seguir a vida religiosa quando era interna no Colégio Divina Pastora, mantido por freiras em São Luís do Maranhão, aos 16 anos. Na época, os votos de castidade e pobreza não incomodaram. Aos 20 anos, noviça no Rio de Janeiro, Anna começou a sentir uma estranha atração pelas colegas, mas, como aprendera desde cedo que sexo era pecado e homossexualismo sacrilégio, nunca comentou com ninguém. “Chegava a ficar 15 dias em total silêncio, afastada, para ver se aquilo passava”, lembra. Evidentemente, não passou. Mas ficou adormecido. Mais tarde, Heloar confessaria a ela o emprego de inibidores de libido, remédios misturados na comida das noviças sem que elas soubessem. Aos 24 anos, desencantada com o tratamento rude dispensado por sua madre superiora – que a discriminava por ser pobre e negra –, Anna aceitou o convite de Heloar, da ordem franciscana de Belo Horizonte, e mudou-se para lá. Desde o início, as duas ficaram amigas e logo começaram um namoro. O romance durou quatro anos. “Foi a época mais feliz de minha vida”, considera.
A ex-freira tem certeza de que as outras sabiam de seu relacionamento, da mesma forma como notava vários casais de namoradas nas instituições por onde passou. Nunca houve repreensão a elas, principalmente por dois motivos. “Heloar era a autoridade. Além disso, a família dela era riquíssima e fazia doações para a Ordem, que não ousaria se queixar de sua conduta”, conta Anna. O relacionamento só acabou quando a superiora foi transferida para a França. Pouco depois, a autora deixaria a Igreja. Hoje, sua luta “é contra a hipocrisia da instituição”. “As comunidades têm padres e freiras cada vez mais idosos. Daqui a pouco, desaparecem. A Igreja espanta devotos com suas políticas ultrapassadas”, acredita. “Todo mundo é resultado de uma relação sexual. O dia em que a Igreja descobrir que o gozo é divino vai cair em si.”

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