quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O Pão de Cristo!!


Depois de meses sem encontrar trabalho, Vitor recorreu à mendicância para sobreviver, coisa que o envergonhava muito. E numa tarde fria de inverno, encontrava-se nas imediações de um clube social quando viu chegar um casal. Meio sem jeito, ele se dirigiu ao homem e pediu algumas moedas para comprar algo para comer.


– Sinto muito, amigo, mas não tenho trocado.

Ouvindo a resposta, a esposa perguntou ao marido:

– O que queria o pobre homem?

– Dinheiro para comer. Disse que tinha fome.

– Lorenzo, não podemos entrar, nos alimentar fartamente e deixar um homem faminto aqui fora!

– Hoje em dia, há um mendigo em cada esquina! Aposto que quer dinheiro para beber.

– Tenho dinheiro na bolsa. Vou dar-lhe alguma coisa – insistiu a senhora.

Mesmo de costas para eles, Vitor ouviu o que disseram. Envergonhado, queria afastar-se correndo, mas a amável voz da mulher lhe disse:

– Aqui tem o suficiente para se alimentar bem, consiga algo saboroso para comer. Ainda que a situação esteja difícil, não perca a esperança. Em algum lugar existe um trabalho para você e peço a Deus que o encontre.

– Obrigado, a senhora me ajudou a recobrar o ânimo. Jamais esquecerei sua gentileza.

– Você estará comendo o Pão de Cristo, partilhe-o! – disse ela com um largo sorriso, dirigido mais a um homem de fé do que a um mendigo.

Vitor sentiu uma forte emoção, como se uma descarga elétrica lhe percorresse o corpo. Encontrou um lugar barato para se alimentar, gastou a metade do que havia ganhado e resolveu guardar o resto para o outro dia. Comeria o ‘Pão de Cristo’ dois dias!

– Um momento! – pensou. – Não posso guardar o Pão de Cristo somente para mim.

E andando, viu um velhinho sentado na calçada.

– Ei, você! – exclamou Victor. – Gostaria de entrar e comer alguma coisa?

– Você fala sério, amigo? Não estou acreditando em tamanha sorte; passo fome desde ontem!

No final do lanche, Vitor notou que o homem envolvia um pedaço de pão em sua sacola de papel.

– Está guardando um pouco para amanhã? – perguntou.

– Não, não. É que tem um menininho onde costumo dormir que tem passado mal ultimamente e estava chorando quando o deixei. Acho que tinha muita fome. Vou levar-lhe este pão.

– O Pão de Cristo! – repetiu as palavras da mulher e teve a estranha sensação de que havia um terceiro convidado sentado naquela mesa.

Os dois homens levaram o pão ao menino faminto que começou a engoli-lo com alegria. De repente, ele se deteve e chamou um cachorrinho assustado.

– Tome, fique com a metade – disse o menino. – O Pão de Cristo alcançará você também.

O garoto tinha mudado de semblante desde o momento que ouviu a história de como começou a partilha do Pão de Cristo. Logo se pôs de pé e partiu para vender jornais com alegria.

– Até logo! – disse Vitor ao velho. – Em algum lugar haverá um emprego, não se desespere.

Ao se afastar, Vitor reparou que o cachorrinho lhe cheirava a perna. Agachou-se para acariciá-lo e descobriu que tinha uma coleira com o endereço de seu dono. Caminharam um bom pedaço até encontrarem o local.

Contente por rever o cachorro, o dono do animal falou:

– No jornal de ontem, ofereci uma recompensa pelo resgate. Tome, este dinheiro é seu.

– Não posso aceitar. Somente queria fazer um bem ao cachorrinho – comentou Vitor.

– Para mim e minha família, o que você fez vale muito mais que isto. E se precisar de um emprego, venha ao meu escritório amanhã. Gostei da sua honestidade.

Ao voltar pela avenida e entrar numa igreja para agradecer, uma missa estava sendo celebrada e Vitor ouviu este velho hino no momento da comunhão:

‘Todo aquele que comer do meu Corpo que é doado, todo aquele que beber do meu Sangue derramado, e crer nas minhas Palavras que são plenas de vida, nunca mais sentirá fome e nem sede em sua lida. Eis que sou o Pão da Vida, eis que sou o Pão do Céu! Faço-me vossa comida, Eu sou mais que leite e mel’.

Pois é, feliz daquele que acredita nas promessas de Deus e partilha as bênçãos que recebe com os pobres. A paz e a justiça só acontecerão em nosso meio se, primeiro, existirem em nossos corações. E parece tão simples não complicarmos as coisas, unindo nossas forças em favor dos mais necessitados, não é mesmo? Mas, infelizmente, quem pensa ser o mais forte prefere brigar com outros ‘fortes’ enquanto centenas de pessoas assistem o ‘duelo’ na miséria.

O mundo sempre foi assim, mas, na eternidade celeste, tudo será diferente. Muitos mendigos serão exaltados e terão suas recompensas. Eis as palavras de Jesus no Evangelho de Mateus (23, 9-12):

“Na terra, não chameis a ninguém de pai, pois um só é vosso Pai, aquele que está nos céus. Não deixeis que vos chamem de guias, pois um só é vosso Guia, Cristo. Pelo contrário, o maior dentre vós deve ser aquele que vos serve. Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado”.


* PAULO ROBERTO LABEGALINI - Escritor católico, Prof. Doutor da Universidade Federal de Itajubá – MG. Pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária. *

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